Satélites: A Resposta Para o Mercado de Internet Móvel da América Latina?

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Um tema específico chamou a atenção nas apresentações realizadas na Telco Transformation Latam, no Rio de Janeiro.

Sob um olhar mais superficial, alguns diriam que elas abordaram territórios muito diferentes: conectividade via satélite e direct-to-device (D2D), saturação do consumidor de telecomunicações, identidade digital, cibercrime, atualizações regulatórias e segurança quântica.

No entanto, havia uma linha em comum: o valor futuro dos serviços de telecomunicações estará, necessariamente, cada vez mais dissociado do número de bits transportados.

Fundamentos em Transformação

Sonia Agnese, da Omdia, mostrou um panorama difícil para o setor. Segundo ela, as receitas globais de conectividade cresceram 3,7% em 2024-25, mas a América Latina registrou apenas 1,5% de aumento. Já as receitas móveis cresceram 2,8%, com um aumento de assinantes de apenas 0,7%, enquanto os usuários de banda larga fixa cresceram 6,2%; as receitas, porém, apenas 0,9%.

Levando a inflação em conta, qualquer ideia de “crescimento” é, na melhor das hipóteses, duvidosa.

Agnese enfatizou que o B2B representa a grande oportunidade de crescimento futuro — 80%, segundo seus cálculos, embora esse número pareça surpreendentemente baixo. Os mercados de consumo estão praticamente saturados, e seria necessária uma economia bem incomum, hoje em dia, para que a desigualdade diminuísse e a renda disponível aumentasse.

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O Brasil já é um mercado de conectividade maduro. O seu órgão regulador, Anatel, registrou 276,4 milhões de acessos móveis no segundo trimestre de 2026, com o 5G representando 23,9% do total. Já a banda larga fixa alcançou 55,4 milhões de conexões, mais de 80% delas em fibra.

Enquanto isso, a estrutura do mercado mudou drasticamente. A Oi, antes a grande desafiante nacional do setor de telecomunicações no país, entrou em processo de falência após vender sua operação móvel para Claro, TIM e Vivo. O mercado móvel, agora com três operadoras, pode ser mais estável, mas também torna mais difícil a perspectiva de gerar crescimento expressivo a partir da conectividade convencional.

Assim, o desafio que se apresenta para essas três operadoras — e para suas equivalentes na maioria dos outros mercados latino-americanos, que também vêm passando por uma onda de consolidação — é como tornar a conectividade mais valiosa para as pessoas e organizações que já estão conectadas.

Espaço de Valor

Henry Douglas Rodrigues, do programa XGMobile do Inatel, ofereceu talvez a ilustração mais clara para chegar a uma resposta.

Sua apresentação sobre NTN, D2D e conectividade por satélite defendeu que o uso de satélites deve ser visto como complementar às redes terrestres, particularmente em áreas como logística, agricultura, energia, mineração, segurança e monitoramento ambiental.

Ele se mostrou especialmente cético quanto ao D2D como substituto da banda larga terrestre, apontando, em vez disso, para mensagens de SOS, sensores, telemetria, logística e backhaul. Talvez não seja surpreendente, mas é uma correção útil para algumas das narrativas mais eufóricas sobre satélites.

O próprio Brasil está se tornando um campo de testes para esse modelo. Claro e Lynk vêm realizando testes de D2D no Maranhão desde 2024, enquanto outras iniciativas exploram IoT via satélite e conectividade direct-to-device.

O que realmente chamou a atenção, porém, foi a observação comercial de Rodrigues sobre o valor — e não a capacidade — do D2D e, de forma mais ampla, das NTN.

Dependendo do contexto, uma conexão via satélite transmitindo uma pequena mensagem de emergência pode valer consideravelmente mais para um cliente do que uma conexão terrestre carregando gigabytes de vídeo. Um sensor que reporta a localização de uma carga valiosa pode gerar mais valor econômico do que um consumidor baixando mais um filme.

Em outras palavras, a largura de banda não é o valor; a velocidade não é o valor; nem mesmo a cobertura é o valor, dependendo da circunstância. O valor está em viabilizar algo com repercussões importantes para o usuário.

Isso deveria soar óbvio, mas, por muito tempo, o setor se concentrou em cobertura, velocidade, capacidade e outros indicadores como valores alternativos. A teoria é de que, jogando o suficiente de tudo isso para os clientes, eles poderão realizar o que quiserem — o que, obviamente, teria um enorme valor.

Talvez este seja o momento no qual surja uma nova visão sobre o modelo de negócios que substitua valores antigos. Para os satélites, nem mesmo o céu parece ser o limite.

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